sexta-feira, 4 de março de 2011

Apontamento em três do dois

Após tantos anos de aparente estabilidade, o homem acorda de um sonho não muito diferente do habitual, abre os olhos e sente a dor latente em suas vias aéreas.
Sente a dor, e tudo parece queimar por dentro. Sua traquéia é agora um pedaço disforme de tecido onde são apagados todos os cigarros do planeta.
A dor parece tão forte que ele finge não reparar as gotículas que começam a sair pela lateral dos olhos, amigas da gravidade que atua livremente naquela posição. Também não notaria o grito reprimido que embarga sua garganta, o leve tremor das mãos, o suor gelado que cobre sua fronte.
Toda sua concentração se volta para a mais primitiva das sensações humanas.
A dor tem nome e endereço, e ele sabe.
Os cabelos brancos são sinal de certa experiência, assim como a farda de nobre tecido azul na cadeira ao lado. O homem sabe o que o paralisa, o que o impede de levantar, o que coloca toda a rotina bem planejada em risco.
Após certa idade, não é o passado de um homem que perpassa centenas de vezes em sua mente. O que ficam são as hipóteses, os caminhos alternativos que ele não trilhou. Após certa idade, o homem vive de se.
Vive dos prazeres que recusou, vive da culpa pela moralidade hipócrita que jurou preservar, das ideologias empoeiradas que defendeu, sente o gosto das garrafas de whisky que nunca chegou a tocar. O homem possui apenas um rosto em sua mente, a face suave e sincera da ingratidão, mil faces serenas sobre a face da desgraça.

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