quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Copie Disforme

Ei, moça.
É, você mesma aí sentadinha no banco da praça fingindo arrogantemente que lê o jornal da semana passada.
Pois saiba que eu sei que você não o lê, não porque não saiba ou não queira, mas porque não podes se concentrar no momento. O jornal é a sua válvula de escape atual nesta pracinha cheia dessas crianças pentelhas e babás brancas.
Ei.
Existe em você um quê de sofrimento. Talvez sejam seus olhos cândidos, já meio embotados pelas lágrimas. Não encare isso como um elogio, moça. Não nasci com a veia poética que me faria amá-la pelos seus olhos lamacentos.
Eu reconheço os seus gestos, as leves fungadas do teu nariz, as matizes únicas do seu vestido florido, ou melhor, do vestido que roubaste à tua sogra.
Ei. Não me olhe assim raivosa. Saiba que neste momento apenas lhe quero bem. Como consolo lhe conto uma coisa: hoje foi o enterro de minha mulher.
Quarenta e dois anos juntos. Quer dizer, juntos na mesma cama, separados da alma, como dizem. Uma vida inteira, é. Sim, sim, eu a amava, como um camponês ama a terra que cultiva, e o crente as punições. Se não estou mal? Talvez. Quer dizer, já não sei se um rato como eu possui o dom da dor. A dor que justifique a existência.
Sinto no mais, a falta de reconhecimento. Sou um verme, acredite. Acredite também que só me encontro nesta praça estúpida por covardia! Já imaginei pelo menos trinta vezes desde que cheguei aqui o que farei ao encontrar-me novamente em casa, junto aos azulejos escolhidos por ela, as plantas terríveis que ela teimava em manter acreditando numa natureza falsa dentro de nosso lar. Suas manias deixaram vestígios em tudo; no ar, nas paredes, no toque dos meus dedos. Como posso atravessar a rua e ver-me na calçada em que seus pés pisaram, tocar na maçaneta que ainda possui o cheiro do esmalte de suas unhas recém-cuidadas?
Estou louco, querida, terrivelmente louco. E deitar-me na cama que ainda possui o formato de seu corpo, beber-lhe a xícara com sua marca de batom, ver em todo canto os vinis medíocres dos sambas que você dançava? E esse seu vestido florido que roubaste à minha mãe?
Não, seus olhos lacrimejantes não tornam sua dor mais bela. Saia daqui, e leve este jornal antigo que já não me serve mais ao zelador, peça que compre o jornal do dia mais um maço de cigarros que alivie a minha repulsa. Isso,vá pela sombra e tente não morrer atropelada no caminho.
....
Onde estávamos?
Ei, moço.

Cantiga na roda (da vida)

Se não vivi foi porque não quis.
Tive sim as oportunidades, os meios, as razões.
Tive as prostitutas disponíveis, o tempo do álcool barato, a praia de Copacabana logo ali.
Se não vivi, foi por puro despeito! Foi o meu modo de cuspir na cara da vida e dizer o quão superior eu pude ser. Ou me tornar.

Se não te amei, nem pude amar, foi porque não quis.
Não quis ser o motivo das tuas risadas nem o personagem dos teus sonhos.
Não quis ser o pai dos teus filhos, o companheiro ante os sucessivos enterros vida afora.
Se não te amei, querida, foi por desespero!

Desespero entre nossos dentes, entre nossos corações.