terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Como diria Tolstói.

Um homem pode viver durante cem anos e continuar morto desde o dia de seu nascimento.
Um segundo, um mínimo vislumbre de felicidade ensina mais a um homem do que cem anos de piadas, orgias e manipulações. Em sua mais pura essência, a criança aponta o dedo para as estrelas e seus pais dizem que isso lhe traz azar. Ela não aponta mais. E se não aponta, como poderá atingi-las um dia?

Parece-me que a felicidade só é válida quando compartilhada. Porém para encontrá-la pela primeira vez, há de se estar sozinho. Há de sofrer, de chorar sozinho em um quarto escuro, de rogar aos céus uma morte indolor.
E o golpe funesto de felicidade atingirá este homem. O desejo de estar vivo em meio à morte e mutilação. De sorrir em meio às lágrimas alheias e de continuar respirando em meio à fumaça dos automóveis e das explosões. De segurar as mãos amadas após as infinitas decepções, dividir o pão de cada dia com os vermes e renegar a qualquer tipo de inibidor de lucidez.

O fim do medo e do pudor é o caminho pelo qual se consertam todas as mágoas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Você roubou meu eu de mim.
Você e o seu jeito amável e suas palavras bonitas, você e a sua inconseqüência lingüística. Você e seus xingamentos, e suas mudanças de humor. Eu fui sendo tragada, esqueci do meu humor pessimista, das minhas palavras profundas.
Você me tragou e eu fui virando criança. Pedia teu colo, queria tuas antigas frases de carinho mas já não sabia se elas existiram um dia ou se eu as tinha imaginado para me fazer feliz.
Fui querendo tuas risadas mas encontrei a ignorância. Querendo os diálogos e encontrei o mórbido silêncio das nossas conversas. Quis o teu olhar por inteiro, quis me ver refletida nas tuas pupilas, quis ser o seu quando e onde.
Eu não era eu com você. Eu era um fantasma opaco da minha forte personalidade que inventei pra te agradar. E agradei. Agradei tanto que por pouco tempo consegui o teu amor, a tua atenção.
E quando quis revelar-me eu, crua e insensível, cética e pessimista quanto à vida, recebi o puro desdém. Eu te amei tanto que reneguei a mim mesma por ti, acreditei na minha mentira, na nossa mentira. Acreditei que tinhas me mudado pra melhor.
Eu já não posso mais, não quero mais. Prefiro a casca seca da minha existência, desde que eu possa existir por completo. Prefiro o ceticismo, a dor, a solidão. Já não tenho medo de encarar o universo sozinha, um monstro prestes a me engolir com dentes de estrelas. Você me dizia que eu nunca poderia exercer minha plena humanidade desse jeito. Que eu precisava crer em algo além, em algo maior.
Hoje eu admito que você estava certo.
Eu vou acreditar em mim.
Eu juro que queria ser apaixonante.
É uma bela palavra, sabe.
“Ela era uma garota apaixonante.” Assim começaria a biografia desse meu amado invisível, no capítulo sobre seu primeiro amor, provavelmente no colegial. Como se colegiais ainda existissem de fato.
“Ela era uma garota apaixonante, dessas que riem por cortesia, que possuem estrelas nos olhos, dessas que sonham, sonham alto e se trancam no quarto ouvindo blues e não se livram da solidão”.
Queria tanto que seria capaz de fingir. Eu diria que vai ficar tudo bem, que estarei sempre aqui, que o destino nos quer juntos, que vamos compor família, túmulos unidos, amor eterno, vou te apoiar, compreender, te olhar nos olhos e te beijar ouvindo a nossa música favorita. Cartões, músicas, recordações, ligações em terças-feiras tediosas, euteamos furtivos, abraços inesperados, teatro infernal.
E não seria amor, não seria.
Quer dizer, amor seria. Amor entre a minha vontade de ser quem eu não sou e você, meu amor.
Eu juro que queria não ser sarcástica demais, babaca demais. Eu juro que queria ainda ter esperança aqui dentro, o suficiente pra chorar ouvindo blues. Só os esperançosos choram, a mim só sobrou a indiferença.
E a indiferença é seca.