quinta-feira, 27 de maio de 2010

A inspiração se esvazia pouco a pouco. Existe tanta beleza no mundo e quanto mais beleza se vê, menos se pode escrever. Porque a escrita é pura invenção humana, engatinhando, e é tão frágil quanto as formiguinhas no chão.
Transpôr para a linguagem o que se sente torna tudo mais grosso e impuro. É traduzir em símbolos humanos o que a evolução moldou por quatro bilhões de anos. E eu, anti-poeta que sou, nunca pude fazer isso. Incapacidade. Ou talvez o que eu pense seja belo demais, trancedental demais para esses caracteres totalmente sem caráter, caracterizados pela vaga expressão, pelo olhar vazio e a voz de muxoxô.
E se penso na natureza de Deus, ou na natureza de Buda, me vem à boca o clima, a última notícia do jornal. Engulo as palavras, elas descem com suavidade. As acaricio, e amo tanto a eternidade quanto a merda. O infinito e a hipocrisia.

A natureza vive. Minhas palavras não.

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