quinta-feira, 27 de maio de 2010

A inspiração se esvazia pouco a pouco. Existe tanta beleza no mundo e quanto mais beleza se vê, menos se pode escrever. Porque a escrita é pura invenção humana, engatinhando, e é tão frágil quanto as formiguinhas no chão.
Transpôr para a linguagem o que se sente torna tudo mais grosso e impuro. É traduzir em símbolos humanos o que a evolução moldou por quatro bilhões de anos. E eu, anti-poeta que sou, nunca pude fazer isso. Incapacidade. Ou talvez o que eu pense seja belo demais, trancedental demais para esses caracteres totalmente sem caráter, caracterizados pela vaga expressão, pelo olhar vazio e a voz de muxoxô.
E se penso na natureza de Deus, ou na natureza de Buda, me vem à boca o clima, a última notícia do jornal. Engulo as palavras, elas descem com suavidade. As acaricio, e amo tanto a eternidade quanto a merda. O infinito e a hipocrisia.

A natureza vive. Minhas palavras não.

sábado, 1 de maio de 2010

Tenho sonhado. Isso pode parecer banal para quem lê. Mas tenho sonhado e isso é uma enorme novidade para mim.
Meus sonhos sempre foram ruins o suficiente e eu torcia para não tê-los. Fechar os olhinhos e sussurrar baixinho: o vazio, por favor, 8 horas de vazio, de treinamento para a morte.

Hoje eu sonhei que visitava uma fábrica de cristais.
E eu via uma cômoda lustrosa, contendo uma infinidade de pequenas taças muito bem acabadas e caras. Principalmente caras. Lembro de ter visto uma etiqueta; o preço, não sei ao certo.
Me debruço para ver a reflexão das luzes nas taças, coisa tão bonita. Contraio os olhos para enxergar melhor o que se passa ali e me surpreendo: era como se existissem pequenos mundos em cada taça, com seus pequenos habitantes acenando para mim, que sou uma novidade em sua pequena rotina de pequenos afazeres.
Eu sorrio e aceno de volta. Por um momento rio por dentro e imagino o quão sobrenatural eu devo ser para eles. E o quão sobrenatural eles são para mim.

Não sei direito como foi e nem o porquê, mas minha próxima lembrança consiste em ver todas as taças se quebrando em estilo dominó. Eu -ou alguma outra coisa- esbarrou em uma das taças, que esbarrou na taça ao lado, que esbarrou na taça ao lado e assim ad infinitum. E eu vi todos os pequenos mundos se quebrando e de cada taça escorria um líquido viscoso.
Aos prantos, chorando -meio por pena dos pequenos mundos, meio por medo de ser descoberta com as taças quebradas por qualquer um que passasse no local-, eu caminho para a cômoda, comprimo meu dedo sobre o líquido e o levo à boca frouxa.
Nunca o gosto do sangue me foi tão doloroso.