Passei a vida inteira a ouvir pela boca alheia: "Mude de vida, case-se, saia, beba, ame, abrace, beije, transe, viva, se mate."
Eu fazia cara de poucos amigos, cara de alguém prestes a chorar. Puro teatro, pura encenação. A falsa preocupação dos outros realmente me dava prazer, me excitava.
Era bom, realmente bom ouvir de tanta gente medíocre o que eu deveria ou não fazer.
Eu ria, gargalhava por dentro. Eu era sempre feliz, completo, em êxtase existencial.
Aquelas pessoas procuravam motivos para não se matar. Precisavam dos outros para viver, precisavam de mim. Eu nunca precisei de alguém.
Eu as via com seus copos de vodca dançando em festas, em movimentos frenéticos, em sorrisos complacentes, olhares e vozes intencionalmente -nem sempre convincentes- sensuais. Eu estava vivo. Vivo até demais, e podia sentir o sangue pulsando em cada artéria, em cada minúsculo capilar, sentia magnificamente o milagre de tanta complexidade que existia só para me manter vivo. E para aquelas bocas insolentes, eu estava desperdiçando tudo isso. Desperdiçando o milagre termodinâmico, o espermatozóide vencedor do meu pai, seus feromônios, o álcool que minha mãe ingeriu para que se deixasse seduzir por ele, o produtor de whisky -mamãe sempre amou whisky; mulher valente, dizem- o agricultor de milho e toda a seleção natural.
E Deus. Eu estava dando as costas ao Criador. O Criador quer que eu viva, o Criador quer que eu deixe meu lado autodestrutivo -leia-se, ocioso- e convide aquela doce moreninha para dançar. A embebede e a leve para a cama.
Pois isto é viver.
Oh, doce licor da juventude.
Foda-se.
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