Abre os olhos e tenta se lembrar dos sonhos. Abre os sonhos e torce para não ter tido mais uma noite de inconsciência. Abre a consciência e sente a gota morna, latente e escorrendo pelo cantinho, pelo cantinho dos olhos puxados.
Abre os olhos pra ver o céu lá fora e se perguntar qual a diferença entre a realidade e os sonhos que não teve.
Abre a vida, abre a vida pra sonhar acordada com galáxias.
Abre a gaveta, puxa o caderno e escreve. Abre a alma e cria histórias, abre a história e lhe dá vida própria. Desembaraça, desembaraça os cabelos, os olhos, a alma, a história, desembaraça a própria vida.
Fecha a porta.
E dorme.
Mais um bordel mental de beira de estrada. Apontamentos, poltronas esburacadas e muita poeira.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Passei a vida inteira a ouvir pela boca alheia: "Mude de vida, case-se, saia, beba, ame, abrace, beije, transe, viva, se mate."
Eu fazia cara de poucos amigos, cara de alguém prestes a chorar. Puro teatro, pura encenação. A falsa preocupação dos outros realmente me dava prazer, me excitava.
Era bom, realmente bom ouvir de tanta gente medíocre o que eu deveria ou não fazer.
Eu ria, gargalhava por dentro. Eu era sempre feliz, completo, em êxtase existencial.
Aquelas pessoas procuravam motivos para não se matar. Precisavam dos outros para viver, precisavam de mim. Eu nunca precisei de alguém.
Eu as via com seus copos de vodca dançando em festas, em movimentos frenéticos, em sorrisos complacentes, olhares e vozes intencionalmente -nem sempre convincentes- sensuais. Eu estava vivo. Vivo até demais, e podia sentir o sangue pulsando em cada artéria, em cada minúsculo capilar, sentia magnificamente o milagre de tanta complexidade que existia só para me manter vivo. E para aquelas bocas insolentes, eu estava desperdiçando tudo isso. Desperdiçando o milagre termodinâmico, o espermatozóide vencedor do meu pai, seus feromônios, o álcool que minha mãe ingeriu para que se deixasse seduzir por ele, o produtor de whisky -mamãe sempre amou whisky; mulher valente, dizem- o agricultor de milho e toda a seleção natural.
E Deus. Eu estava dando as costas ao Criador. O Criador quer que eu viva, o Criador quer que eu deixe meu lado autodestrutivo -leia-se, ocioso- e convide aquela doce moreninha para dançar. A embebede e a leve para a cama.
Pois isto é viver.
Oh, doce licor da juventude.
Foda-se.
Eu fazia cara de poucos amigos, cara de alguém prestes a chorar. Puro teatro, pura encenação. A falsa preocupação dos outros realmente me dava prazer, me excitava.
Era bom, realmente bom ouvir de tanta gente medíocre o que eu deveria ou não fazer.
Eu ria, gargalhava por dentro. Eu era sempre feliz, completo, em êxtase existencial.
Aquelas pessoas procuravam motivos para não se matar. Precisavam dos outros para viver, precisavam de mim. Eu nunca precisei de alguém.
Eu as via com seus copos de vodca dançando em festas, em movimentos frenéticos, em sorrisos complacentes, olhares e vozes intencionalmente -nem sempre convincentes- sensuais. Eu estava vivo. Vivo até demais, e podia sentir o sangue pulsando em cada artéria, em cada minúsculo capilar, sentia magnificamente o milagre de tanta complexidade que existia só para me manter vivo. E para aquelas bocas insolentes, eu estava desperdiçando tudo isso. Desperdiçando o milagre termodinâmico, o espermatozóide vencedor do meu pai, seus feromônios, o álcool que minha mãe ingeriu para que se deixasse seduzir por ele, o produtor de whisky -mamãe sempre amou whisky; mulher valente, dizem- o agricultor de milho e toda a seleção natural.
E Deus. Eu estava dando as costas ao Criador. O Criador quer que eu viva, o Criador quer que eu deixe meu lado autodestrutivo -leia-se, ocioso- e convide aquela doce moreninha para dançar. A embebede e a leve para a cama.
Pois isto é viver.
Oh, doce licor da juventude.
Foda-se.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Garota eu vou pra Califórnia.
Deixar para trás todos os problemas, morrer para tudo e para todos e recomeçar longe, bem longe dali.
Ele sabia, sabia que tinha conseguido. Sabia e sentia.
Podia ouvir os choros de sua mãe, a frustração paterna. Em sua mente, imaginara o enterro, o corpo não-identificado, totalmente carbonizado. As flores, as declarações e discursos emocionados de rosto dos quais ele não se lembrava mais.
O corpo, de um delinquente qualquer, fora sua salvação. Meses de planejamento foram necessários, um crime fora cometido. Mas a liberdade estava ali, cada quilômetro mais próxima.
O vento no rosto sempre limpou qualquer ferida, mentira e mágoa. E o vento frio e cortante do Norte eram ideais para o que ele sentia.
E ao pensar no que tinha feito, ele chorou.
Chorou como um bebê fitando a luminosidade, com seus pulmões virgens e intocados pelo ar.
Chorou porque nunca tinha visto a luz. Porque estivera mentindo e iludindo a si mesmo e teve medo, medo de não saber mais dizer a verdade.
Medo de ser incapaz de digerir o amor e o afeto.
E de já ter morrido e nem mesmo reparado.
Ele sabia, sabia que tinha conseguido. Sabia e sentia.
Podia ouvir os choros de sua mãe, a frustração paterna. Em sua mente, imaginara o enterro, o corpo não-identificado, totalmente carbonizado. As flores, as declarações e discursos emocionados de rosto dos quais ele não se lembrava mais.
O corpo, de um delinquente qualquer, fora sua salvação. Meses de planejamento foram necessários, um crime fora cometido. Mas a liberdade estava ali, cada quilômetro mais próxima.
O vento no rosto sempre limpou qualquer ferida, mentira e mágoa. E o vento frio e cortante do Norte eram ideais para o que ele sentia.
E ao pensar no que tinha feito, ele chorou.
Chorou como um bebê fitando a luminosidade, com seus pulmões virgens e intocados pelo ar.
Chorou porque nunca tinha visto a luz. Porque estivera mentindo e iludindo a si mesmo e teve medo, medo de não saber mais dizer a verdade.
Medo de ser incapaz de digerir o amor e o afeto.
E de já ter morrido e nem mesmo reparado.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
São quase, quase 7 bilhões de pessoas lá fora, vivendo.
Indo, vindo, tratando de assuntos tão importantes para o universo quanto o meu café-da-manhã, procurando motivos para não se matar.
A Terra gira devagar, um terremoto a tira um pouquinho de órbita, um estrago aqui outro acolá.
Sete bilhões de pessoas e eu não conheço nenhuma delas.
Eu procuro alguém pra ligar e não lembro de número algum.
Rosto algum.
Nem das vozes eu trato de lembrar.
Em um mundo cada vez mais inconveniente, eu deveria ganhar algum tipo de prêmio.
"E o prêmio Solidão vai paaaaara..."
Me pergunto se a vida continua tão ruim desde a última vez que saí para checar.
Pessoas e suas fotos, e suas opiniões e suas "paixões" e suas pequenas guerras lá fora.
Fui agraciado com a dádiva do esquecimento.
É como morrer, depois de um tempo só se lembram do dia em que você nasceu, e do dia em que morreu. Toda uma existência, todas as fotos e opiniões e "paixões" e guerras se transformam em dois dias e alguns comentários chorosos sobre quem você foi. Ninguém se importa de verdade.
Eu morri, a diferença é que continuo existindo.
Indo, vindo, tratando de assuntos tão importantes para o universo quanto o meu café-da-manhã, procurando motivos para não se matar.
A Terra gira devagar, um terremoto a tira um pouquinho de órbita, um estrago aqui outro acolá.
Sete bilhões de pessoas e eu não conheço nenhuma delas.
Eu procuro alguém pra ligar e não lembro de número algum.
Rosto algum.
Nem das vozes eu trato de lembrar.
Em um mundo cada vez mais inconveniente, eu deveria ganhar algum tipo de prêmio.
"E o prêmio Solidão vai paaaaara..."
Me pergunto se a vida continua tão ruim desde a última vez que saí para checar.
Pessoas e suas fotos, e suas opiniões e suas "paixões" e suas pequenas guerras lá fora.
Fui agraciado com a dádiva do esquecimento.
É como morrer, depois de um tempo só se lembram do dia em que você nasceu, e do dia em que morreu. Toda uma existência, todas as fotos e opiniões e "paixões" e guerras se transformam em dois dias e alguns comentários chorosos sobre quem você foi. Ninguém se importa de verdade.
Eu morri, a diferença é que continuo existindo.
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