sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Prólogo. Ou quase isso.

Seis da manhã e Verônica espera uma ligação que não virá.
Já se passaram dois intermináveis meses de espera e angústia, calafrios na espinha e misantropia, madrugadas sufocantes (sóbrias ou não) onde a insônia é a única regra.
Ela se levanta da cama desarrumada onde passara as piores sete horas de toda sua vida miserável.
Deitada e inquieta, não conseguira dormir...de novo. Se contentara em fitar a escuridão sempre se perguntando o que retribuia o seu olhar. Nunca se sabe o que se esconde no vazio de um quarto.
Encontrou o isqueiro jogado na mesinha ao lado da cama e acendeu aquele que seria o seu último cigarro. Aquela amarga tragada perfurou-lhe o espírito, libertando toda a mágoa acumulada, todo o ódio e frustração.
Ele não ligaria -isso estava mais do que claro- mas Verônica simplesmente não conseguia evitar seus pensamentos esperançosos.
Chegara a imaginar o telefonema, quem sabe um milhão e meio de vezes, e todas as possibilidades. Ele choraria, pediria desculpas por sumir e ela passivamente marcaria um encontro de reconciliação.
Um encontro apenas -e ela não pôde evitar um sorrisinho irônico- que mal poderia haver nisso? Duas horas entre silêncios contrangidos, lágrimas mornas que teimam em sair pelo canto dos olhos e um pudim de passas. E eles acabariam em uma cama suja qualquer, os corpos e almas purificados no êxtase hipócrita que é o amor.
Ou ainda, ele ligaria e jogaria toda a culpa em seus ombros, a mandaria ao inferno -ou a qualquer lugar pior- e ainda a faria ouvir os gemidos de sua nova prostituta. Assim são os homens crescidos, é o que dizem.
Verônica se sentia preparada para qualquer resposta, qualquer mera notícia confusa de seu paradeiro. Menos para o silêncio que a falta deste telefonema trazia.