Um homem pode viver durante cem anos e continuar morto desde o dia de seu nascimento.
Um segundo, um mínimo vislumbre de felicidade ensina mais a um homem do que cem anos de piadas, orgias e manipulações. Em sua mais pura essência, a criança aponta o dedo para as estrelas e seus pais dizem que isso lhe traz azar. Ela não aponta mais. E se não aponta, como poderá atingi-las um dia?
Parece-me que a felicidade só é válida quando compartilhada. Porém para encontrá-la pela primeira vez, há de se estar sozinho. Há de sofrer, de chorar sozinho em um quarto escuro, de rogar aos céus uma morte indolor.
E o golpe funesto de felicidade atingirá este homem. O desejo de estar vivo em meio à morte e mutilação. De sorrir em meio às lágrimas alheias e de continuar respirando em meio à fumaça dos automóveis e das explosões. De segurar as mãos amadas após as infinitas decepções, dividir o pão de cada dia com os vermes e renegar a qualquer tipo de inibidor de lucidez.
O fim do medo e do pudor é o caminho pelo qual se consertam todas as mágoas.
Mais um bordel mental de beira de estrada. Apontamentos, poltronas esburacadas e muita poeira.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
sábado, 11 de dezembro de 2010
Você roubou meu eu de mim.
Você e o seu jeito amável e suas palavras bonitas, você e a sua inconseqüência lingüística. Você e seus xingamentos, e suas mudanças de humor. Eu fui sendo tragada, esqueci do meu humor pessimista, das minhas palavras profundas.
Você me tragou e eu fui virando criança. Pedia teu colo, queria tuas antigas frases de carinho mas já não sabia se elas existiram um dia ou se eu as tinha imaginado para me fazer feliz.
Fui querendo tuas risadas mas encontrei a ignorância. Querendo os diálogos e encontrei o mórbido silêncio das nossas conversas. Quis o teu olhar por inteiro, quis me ver refletida nas tuas pupilas, quis ser o seu quando e onde.
Eu não era eu com você. Eu era um fantasma opaco da minha forte personalidade que inventei pra te agradar. E agradei. Agradei tanto que por pouco tempo consegui o teu amor, a tua atenção.
E quando quis revelar-me eu, crua e insensível, cética e pessimista quanto à vida, recebi o puro desdém. Eu te amei tanto que reneguei a mim mesma por ti, acreditei na minha mentira, na nossa mentira. Acreditei que tinhas me mudado pra melhor.
Eu já não posso mais, não quero mais. Prefiro a casca seca da minha existência, desde que eu possa existir por completo. Prefiro o ceticismo, a dor, a solidão. Já não tenho medo de encarar o universo sozinha, um monstro prestes a me engolir com dentes de estrelas. Você me dizia que eu nunca poderia exercer minha plena humanidade desse jeito. Que eu precisava crer em algo além, em algo maior.
Hoje eu admito que você estava certo.
Eu vou acreditar em mim.
Você e o seu jeito amável e suas palavras bonitas, você e a sua inconseqüência lingüística. Você e seus xingamentos, e suas mudanças de humor. Eu fui sendo tragada, esqueci do meu humor pessimista, das minhas palavras profundas.
Você me tragou e eu fui virando criança. Pedia teu colo, queria tuas antigas frases de carinho mas já não sabia se elas existiram um dia ou se eu as tinha imaginado para me fazer feliz.
Fui querendo tuas risadas mas encontrei a ignorância. Querendo os diálogos e encontrei o mórbido silêncio das nossas conversas. Quis o teu olhar por inteiro, quis me ver refletida nas tuas pupilas, quis ser o seu quando e onde.
Eu não era eu com você. Eu era um fantasma opaco da minha forte personalidade que inventei pra te agradar. E agradei. Agradei tanto que por pouco tempo consegui o teu amor, a tua atenção.
E quando quis revelar-me eu, crua e insensível, cética e pessimista quanto à vida, recebi o puro desdém. Eu te amei tanto que reneguei a mim mesma por ti, acreditei na minha mentira, na nossa mentira. Acreditei que tinhas me mudado pra melhor.
Eu já não posso mais, não quero mais. Prefiro a casca seca da minha existência, desde que eu possa existir por completo. Prefiro o ceticismo, a dor, a solidão. Já não tenho medo de encarar o universo sozinha, um monstro prestes a me engolir com dentes de estrelas. Você me dizia que eu nunca poderia exercer minha plena humanidade desse jeito. Que eu precisava crer em algo além, em algo maior.
Hoje eu admito que você estava certo.
Eu vou acreditar em mim.
Eu juro que queria ser apaixonante.
É uma bela palavra, sabe.
“Ela era uma garota apaixonante.” Assim começaria a biografia desse meu amado invisível, no capítulo sobre seu primeiro amor, provavelmente no colegial. Como se colegiais ainda existissem de fato.
“Ela era uma garota apaixonante, dessas que riem por cortesia, que possuem estrelas nos olhos, dessas que sonham, sonham alto e se trancam no quarto ouvindo blues e não se livram da solidão”.
Queria tanto que seria capaz de fingir. Eu diria que vai ficar tudo bem, que estarei sempre aqui, que o destino nos quer juntos, que vamos compor família, túmulos unidos, amor eterno, vou te apoiar, compreender, te olhar nos olhos e te beijar ouvindo a nossa música favorita. Cartões, músicas, recordações, ligações em terças-feiras tediosas, euteamos furtivos, abraços inesperados, teatro infernal.
E não seria amor, não seria.
Quer dizer, amor seria. Amor entre a minha vontade de ser quem eu não sou e você, meu amor.
Eu juro que queria não ser sarcástica demais, babaca demais. Eu juro que queria ainda ter esperança aqui dentro, o suficiente pra chorar ouvindo blues. Só os esperançosos choram, a mim só sobrou a indiferença.
E a indiferença é seca.
É uma bela palavra, sabe.
“Ela era uma garota apaixonante.” Assim começaria a biografia desse meu amado invisível, no capítulo sobre seu primeiro amor, provavelmente no colegial. Como se colegiais ainda existissem de fato.
“Ela era uma garota apaixonante, dessas que riem por cortesia, que possuem estrelas nos olhos, dessas que sonham, sonham alto e se trancam no quarto ouvindo blues e não se livram da solidão”.
Queria tanto que seria capaz de fingir. Eu diria que vai ficar tudo bem, que estarei sempre aqui, que o destino nos quer juntos, que vamos compor família, túmulos unidos, amor eterno, vou te apoiar, compreender, te olhar nos olhos e te beijar ouvindo a nossa música favorita. Cartões, músicas, recordações, ligações em terças-feiras tediosas, euteamos furtivos, abraços inesperados, teatro infernal.
E não seria amor, não seria.
Quer dizer, amor seria. Amor entre a minha vontade de ser quem eu não sou e você, meu amor.
Eu juro que queria não ser sarcástica demais, babaca demais. Eu juro que queria ainda ter esperança aqui dentro, o suficiente pra chorar ouvindo blues. Só os esperançosos choram, a mim só sobrou a indiferença.
E a indiferença é seca.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
A inspiração se esvazia pouco a pouco. Existe tanta beleza no mundo e quanto mais beleza se vê, menos se pode escrever. Porque a escrita é pura invenção humana, engatinhando, e é tão frágil quanto as formiguinhas no chão.
Transpôr para a linguagem o que se sente torna tudo mais grosso e impuro. É traduzir em símbolos humanos o que a evolução moldou por quatro bilhões de anos. E eu, anti-poeta que sou, nunca pude fazer isso. Incapacidade. Ou talvez o que eu pense seja belo demais, trancedental demais para esses caracteres totalmente sem caráter, caracterizados pela vaga expressão, pelo olhar vazio e a voz de muxoxô.
E se penso na natureza de Deus, ou na natureza de Buda, me vem à boca o clima, a última notícia do jornal. Engulo as palavras, elas descem com suavidade. As acaricio, e amo tanto a eternidade quanto a merda. O infinito e a hipocrisia.
A natureza vive. Minhas palavras não.
Transpôr para a linguagem o que se sente torna tudo mais grosso e impuro. É traduzir em símbolos humanos o que a evolução moldou por quatro bilhões de anos. E eu, anti-poeta que sou, nunca pude fazer isso. Incapacidade. Ou talvez o que eu pense seja belo demais, trancedental demais para esses caracteres totalmente sem caráter, caracterizados pela vaga expressão, pelo olhar vazio e a voz de muxoxô.
E se penso na natureza de Deus, ou na natureza de Buda, me vem à boca o clima, a última notícia do jornal. Engulo as palavras, elas descem com suavidade. As acaricio, e amo tanto a eternidade quanto a merda. O infinito e a hipocrisia.
A natureza vive. Minhas palavras não.
sábado, 1 de maio de 2010
Tenho sonhado. Isso pode parecer banal para quem lê. Mas tenho sonhado e isso é uma enorme novidade para mim.
Meus sonhos sempre foram ruins o suficiente e eu torcia para não tê-los. Fechar os olhinhos e sussurrar baixinho: o vazio, por favor, 8 horas de vazio, de treinamento para a morte.
Hoje eu sonhei que visitava uma fábrica de cristais.
E eu via uma cômoda lustrosa, contendo uma infinidade de pequenas taças muito bem acabadas e caras. Principalmente caras. Lembro de ter visto uma etiqueta; o preço, não sei ao certo.
Me debruço para ver a reflexão das luzes nas taças, coisa tão bonita. Contraio os olhos para enxergar melhor o que se passa ali e me surpreendo: era como se existissem pequenos mundos em cada taça, com seus pequenos habitantes acenando para mim, que sou uma novidade em sua pequena rotina de pequenos afazeres.
Eu sorrio e aceno de volta. Por um momento rio por dentro e imagino o quão sobrenatural eu devo ser para eles. E o quão sobrenatural eles são para mim.
Não sei direito como foi e nem o porquê, mas minha próxima lembrança consiste em ver todas as taças se quebrando em estilo dominó. Eu -ou alguma outra coisa- esbarrou em uma das taças, que esbarrou na taça ao lado, que esbarrou na taça ao lado e assim ad infinitum. E eu vi todos os pequenos mundos se quebrando e de cada taça escorria um líquido viscoso.
Aos prantos, chorando -meio por pena dos pequenos mundos, meio por medo de ser descoberta com as taças quebradas por qualquer um que passasse no local-, eu caminho para a cômoda, comprimo meu dedo sobre o líquido e o levo à boca frouxa.
Nunca o gosto do sangue me foi tão doloroso.
Meus sonhos sempre foram ruins o suficiente e eu torcia para não tê-los. Fechar os olhinhos e sussurrar baixinho: o vazio, por favor, 8 horas de vazio, de treinamento para a morte.
Hoje eu sonhei que visitava uma fábrica de cristais.
E eu via uma cômoda lustrosa, contendo uma infinidade de pequenas taças muito bem acabadas e caras. Principalmente caras. Lembro de ter visto uma etiqueta; o preço, não sei ao certo.
Me debruço para ver a reflexão das luzes nas taças, coisa tão bonita. Contraio os olhos para enxergar melhor o que se passa ali e me surpreendo: era como se existissem pequenos mundos em cada taça, com seus pequenos habitantes acenando para mim, que sou uma novidade em sua pequena rotina de pequenos afazeres.
Eu sorrio e aceno de volta. Por um momento rio por dentro e imagino o quão sobrenatural eu devo ser para eles. E o quão sobrenatural eles são para mim.
Não sei direito como foi e nem o porquê, mas minha próxima lembrança consiste em ver todas as taças se quebrando em estilo dominó. Eu -ou alguma outra coisa- esbarrou em uma das taças, que esbarrou na taça ao lado, que esbarrou na taça ao lado e assim ad infinitum. E eu vi todos os pequenos mundos se quebrando e de cada taça escorria um líquido viscoso.
Aos prantos, chorando -meio por pena dos pequenos mundos, meio por medo de ser descoberta com as taças quebradas por qualquer um que passasse no local-, eu caminho para a cômoda, comprimo meu dedo sobre o líquido e o levo à boca frouxa.
Nunca o gosto do sangue me foi tão doloroso.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Cotidiano.
Abre os olhos e tenta se lembrar dos sonhos. Abre os sonhos e torce para não ter tido mais uma noite de inconsciência. Abre a consciência e sente a gota morna, latente e escorrendo pelo cantinho, pelo cantinho dos olhos puxados.
Abre os olhos pra ver o céu lá fora e se perguntar qual a diferença entre a realidade e os sonhos que não teve.
Abre a vida, abre a vida pra sonhar acordada com galáxias.
Abre a gaveta, puxa o caderno e escreve. Abre a alma e cria histórias, abre a história e lhe dá vida própria. Desembaraça, desembaraça os cabelos, os olhos, a alma, a história, desembaraça a própria vida.
Fecha a porta.
E dorme.
Abre os olhos pra ver o céu lá fora e se perguntar qual a diferença entre a realidade e os sonhos que não teve.
Abre a vida, abre a vida pra sonhar acordada com galáxias.
Abre a gaveta, puxa o caderno e escreve. Abre a alma e cria histórias, abre a história e lhe dá vida própria. Desembaraça, desembaraça os cabelos, os olhos, a alma, a história, desembaraça a própria vida.
Fecha a porta.
E dorme.
domingo, 25 de abril de 2010
Passei a vida inteira a ouvir pela boca alheia: "Mude de vida, case-se, saia, beba, ame, abrace, beije, transe, viva, se mate."
Eu fazia cara de poucos amigos, cara de alguém prestes a chorar. Puro teatro, pura encenação. A falsa preocupação dos outros realmente me dava prazer, me excitava.
Era bom, realmente bom ouvir de tanta gente medíocre o que eu deveria ou não fazer.
Eu ria, gargalhava por dentro. Eu era sempre feliz, completo, em êxtase existencial.
Aquelas pessoas procuravam motivos para não se matar. Precisavam dos outros para viver, precisavam de mim. Eu nunca precisei de alguém.
Eu as via com seus copos de vodca dançando em festas, em movimentos frenéticos, em sorrisos complacentes, olhares e vozes intencionalmente -nem sempre convincentes- sensuais. Eu estava vivo. Vivo até demais, e podia sentir o sangue pulsando em cada artéria, em cada minúsculo capilar, sentia magnificamente o milagre de tanta complexidade que existia só para me manter vivo. E para aquelas bocas insolentes, eu estava desperdiçando tudo isso. Desperdiçando o milagre termodinâmico, o espermatozóide vencedor do meu pai, seus feromônios, o álcool que minha mãe ingeriu para que se deixasse seduzir por ele, o produtor de whisky -mamãe sempre amou whisky; mulher valente, dizem- o agricultor de milho e toda a seleção natural.
E Deus. Eu estava dando as costas ao Criador. O Criador quer que eu viva, o Criador quer que eu deixe meu lado autodestrutivo -leia-se, ocioso- e convide aquela doce moreninha para dançar. A embebede e a leve para a cama.
Pois isto é viver.
Oh, doce licor da juventude.
Foda-se.
Eu fazia cara de poucos amigos, cara de alguém prestes a chorar. Puro teatro, pura encenação. A falsa preocupação dos outros realmente me dava prazer, me excitava.
Era bom, realmente bom ouvir de tanta gente medíocre o que eu deveria ou não fazer.
Eu ria, gargalhava por dentro. Eu era sempre feliz, completo, em êxtase existencial.
Aquelas pessoas procuravam motivos para não se matar. Precisavam dos outros para viver, precisavam de mim. Eu nunca precisei de alguém.
Eu as via com seus copos de vodca dançando em festas, em movimentos frenéticos, em sorrisos complacentes, olhares e vozes intencionalmente -nem sempre convincentes- sensuais. Eu estava vivo. Vivo até demais, e podia sentir o sangue pulsando em cada artéria, em cada minúsculo capilar, sentia magnificamente o milagre de tanta complexidade que existia só para me manter vivo. E para aquelas bocas insolentes, eu estava desperdiçando tudo isso. Desperdiçando o milagre termodinâmico, o espermatozóide vencedor do meu pai, seus feromônios, o álcool que minha mãe ingeriu para que se deixasse seduzir por ele, o produtor de whisky -mamãe sempre amou whisky; mulher valente, dizem- o agricultor de milho e toda a seleção natural.
E Deus. Eu estava dando as costas ao Criador. O Criador quer que eu viva, o Criador quer que eu deixe meu lado autodestrutivo -leia-se, ocioso- e convide aquela doce moreninha para dançar. A embebede e a leve para a cama.
Pois isto é viver.
Oh, doce licor da juventude.
Foda-se.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Garota eu vou pra Califórnia.
Deixar para trás todos os problemas, morrer para tudo e para todos e recomeçar longe, bem longe dali.
Ele sabia, sabia que tinha conseguido. Sabia e sentia.
Podia ouvir os choros de sua mãe, a frustração paterna. Em sua mente, imaginara o enterro, o corpo não-identificado, totalmente carbonizado. As flores, as declarações e discursos emocionados de rosto dos quais ele não se lembrava mais.
O corpo, de um delinquente qualquer, fora sua salvação. Meses de planejamento foram necessários, um crime fora cometido. Mas a liberdade estava ali, cada quilômetro mais próxima.
O vento no rosto sempre limpou qualquer ferida, mentira e mágoa. E o vento frio e cortante do Norte eram ideais para o que ele sentia.
E ao pensar no que tinha feito, ele chorou.
Chorou como um bebê fitando a luminosidade, com seus pulmões virgens e intocados pelo ar.
Chorou porque nunca tinha visto a luz. Porque estivera mentindo e iludindo a si mesmo e teve medo, medo de não saber mais dizer a verdade.
Medo de ser incapaz de digerir o amor e o afeto.
E de já ter morrido e nem mesmo reparado.
Ele sabia, sabia que tinha conseguido. Sabia e sentia.
Podia ouvir os choros de sua mãe, a frustração paterna. Em sua mente, imaginara o enterro, o corpo não-identificado, totalmente carbonizado. As flores, as declarações e discursos emocionados de rosto dos quais ele não se lembrava mais.
O corpo, de um delinquente qualquer, fora sua salvação. Meses de planejamento foram necessários, um crime fora cometido. Mas a liberdade estava ali, cada quilômetro mais próxima.
O vento no rosto sempre limpou qualquer ferida, mentira e mágoa. E o vento frio e cortante do Norte eram ideais para o que ele sentia.
E ao pensar no que tinha feito, ele chorou.
Chorou como um bebê fitando a luminosidade, com seus pulmões virgens e intocados pelo ar.
Chorou porque nunca tinha visto a luz. Porque estivera mentindo e iludindo a si mesmo e teve medo, medo de não saber mais dizer a verdade.
Medo de ser incapaz de digerir o amor e o afeto.
E de já ter morrido e nem mesmo reparado.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
São quase, quase 7 bilhões de pessoas lá fora, vivendo.
Indo, vindo, tratando de assuntos tão importantes para o universo quanto o meu café-da-manhã, procurando motivos para não se matar.
A Terra gira devagar, um terremoto a tira um pouquinho de órbita, um estrago aqui outro acolá.
Sete bilhões de pessoas e eu não conheço nenhuma delas.
Eu procuro alguém pra ligar e não lembro de número algum.
Rosto algum.
Nem das vozes eu trato de lembrar.
Em um mundo cada vez mais inconveniente, eu deveria ganhar algum tipo de prêmio.
"E o prêmio Solidão vai paaaaara..."
Me pergunto se a vida continua tão ruim desde a última vez que saí para checar.
Pessoas e suas fotos, e suas opiniões e suas "paixões" e suas pequenas guerras lá fora.
Fui agraciado com a dádiva do esquecimento.
É como morrer, depois de um tempo só se lembram do dia em que você nasceu, e do dia em que morreu. Toda uma existência, todas as fotos e opiniões e "paixões" e guerras se transformam em dois dias e alguns comentários chorosos sobre quem você foi. Ninguém se importa de verdade.
Eu morri, a diferença é que continuo existindo.
Indo, vindo, tratando de assuntos tão importantes para o universo quanto o meu café-da-manhã, procurando motivos para não se matar.
A Terra gira devagar, um terremoto a tira um pouquinho de órbita, um estrago aqui outro acolá.
Sete bilhões de pessoas e eu não conheço nenhuma delas.
Eu procuro alguém pra ligar e não lembro de número algum.
Rosto algum.
Nem das vozes eu trato de lembrar.
Em um mundo cada vez mais inconveniente, eu deveria ganhar algum tipo de prêmio.
"E o prêmio Solidão vai paaaaara..."
Me pergunto se a vida continua tão ruim desde a última vez que saí para checar.
Pessoas e suas fotos, e suas opiniões e suas "paixões" e suas pequenas guerras lá fora.
Fui agraciado com a dádiva do esquecimento.
É como morrer, depois de um tempo só se lembram do dia em que você nasceu, e do dia em que morreu. Toda uma existência, todas as fotos e opiniões e "paixões" e guerras se transformam em dois dias e alguns comentários chorosos sobre quem você foi. Ninguém se importa de verdade.
Eu morri, a diferença é que continuo existindo.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Os pinguins-imperadores.
A menina bonita que entra na cafeteria. O garoto de barba e óculos engraçados que te espia por entre as prateleiras de física.
Tantos “quase amantes” que passam por uma pessoa em um único dia. “Quase alma-gêmeas”.
Falta coragem. Alguns chamariam de cara-de-pau, mas é bem mais que isso.
Não é simplesmente medo da rejeição.
Pergunte, receba um não e vá embora. A vida continua.
É o medo de ver o próprio reflexo espelhado em 3 letras, não.
“Não, não estou interessado.”
“Não, sou comprometida.” E o sorrisinho amarelo habitual.
Não é ser rejeitado pela pessoa dos sonhos. É sentir-se incapaz de qualquer outra coisa.
Ver um jovem castelo de areia desmoronar pela maré invisível e impiedosa.
Não.
E erguer o rosto e dizer: “não quer me ajudar a reconstruí-lo?”
-“Garotinha ruiva, não quer ser minha namorada?”
Charlie Brown nunca aprendeu a erguer o rosto e a gritar.
Tantos “quase amantes” que passam por uma pessoa em um único dia. “Quase alma-gêmeas”.
Falta coragem. Alguns chamariam de cara-de-pau, mas é bem mais que isso.
Não é simplesmente medo da rejeição.
Pergunte, receba um não e vá embora. A vida continua.
É o medo de ver o próprio reflexo espelhado em 3 letras, não.
“Não, não estou interessado.”
“Não, sou comprometida.” E o sorrisinho amarelo habitual.
Não é ser rejeitado pela pessoa dos sonhos. É sentir-se incapaz de qualquer outra coisa.
Ver um jovem castelo de areia desmoronar pela maré invisível e impiedosa.
Não.
E erguer o rosto e dizer: “não quer me ajudar a reconstruí-lo?”
-“Garotinha ruiva, não quer ser minha namorada?”
Charlie Brown nunca aprendeu a erguer o rosto e a gritar.
quarta-feira, 10 de março de 2010
(...)
Eu sinto como se tivesse que escrever alguma coisa.
Porque me falta alguma coisa.
Falta um abraço verdadeiro de alguém, falta a coragem de dizer o que eu sinto, de ser piegas e elogiada, falta o tempo do meu pai, a atenção da minha mãe.
Falta sinceridade.
Me sobra criatividade e fingimento.
Passividade.
Porque eu passo o tempo todo aqui, mas estou em outro lugar.
Eu estou em lugar algum.
Me sobra medo, me sobra sono.
Me sobra verbo, verbo de ligação.
Porque eu posso dizer o que eu sou, como estou e onde gostaria de ficar.
Mas não para você, para ninguém.
Da boca pra fora tudo parece sujo e banal.
Eu solto os risos e prendo as lágrimas, faz parte do meu show.
Porque me falta alguma coisa.
Falta um abraço verdadeiro de alguém, falta a coragem de dizer o que eu sinto, de ser piegas e elogiada, falta o tempo do meu pai, a atenção da minha mãe.
Falta sinceridade.
Me sobra criatividade e fingimento.
Passividade.
Porque eu passo o tempo todo aqui, mas estou em outro lugar.
Eu estou em lugar algum.
Me sobra medo, me sobra sono.
Me sobra verbo, verbo de ligação.
Porque eu posso dizer o que eu sou, como estou e onde gostaria de ficar.
Mas não para você, para ninguém.
Da boca pra fora tudo parece sujo e banal.
Eu solto os risos e prendo as lágrimas, faz parte do meu show.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Prólogo. Ou quase isso.
Seis da manhã e Verônica espera uma ligação que não virá.
Já se passaram dois intermináveis meses de espera e angústia, calafrios na espinha e misantropia, madrugadas sufocantes (sóbrias ou não) onde a insônia é a única regra.
Ela se levanta da cama desarrumada onde passara as piores sete horas de toda sua vida miserável.
Deitada e inquieta, não conseguira dormir...de novo. Se contentara em fitar a escuridão sempre se perguntando o que retribuia o seu olhar. Nunca se sabe o que se esconde no vazio de um quarto.
Encontrou o isqueiro jogado na mesinha ao lado da cama e acendeu aquele que seria o seu último cigarro. Aquela amarga tragada perfurou-lhe o espírito, libertando toda a mágoa acumulada, todo o ódio e frustração.
Ele não ligaria -isso estava mais do que claro- mas Verônica simplesmente não conseguia evitar seus pensamentos esperançosos.
Chegara a imaginar o telefonema, quem sabe um milhão e meio de vezes, e todas as possibilidades. Ele choraria, pediria desculpas por sumir e ela passivamente marcaria um encontro de reconciliação.
Um encontro apenas -e ela não pôde evitar um sorrisinho irônico- que mal poderia haver nisso? Duas horas entre silêncios contrangidos, lágrimas mornas que teimam em sair pelo canto dos olhos e um pudim de passas. E eles acabariam em uma cama suja qualquer, os corpos e almas purificados no êxtase hipócrita que é o amor.
Ou ainda, ele ligaria e jogaria toda a culpa em seus ombros, a mandaria ao inferno -ou a qualquer lugar pior- e ainda a faria ouvir os gemidos de sua nova prostituta. Assim são os homens crescidos, é o que dizem.
Verônica se sentia preparada para qualquer resposta, qualquer mera notícia confusa de seu paradeiro. Menos para o silêncio que a falta deste telefonema trazia.
Já se passaram dois intermináveis meses de espera e angústia, calafrios na espinha e misantropia, madrugadas sufocantes (sóbrias ou não) onde a insônia é a única regra.
Ela se levanta da cama desarrumada onde passara as piores sete horas de toda sua vida miserável.
Deitada e inquieta, não conseguira dormir...de novo. Se contentara em fitar a escuridão sempre se perguntando o que retribuia o seu olhar. Nunca se sabe o que se esconde no vazio de um quarto.
Encontrou o isqueiro jogado na mesinha ao lado da cama e acendeu aquele que seria o seu último cigarro. Aquela amarga tragada perfurou-lhe o espírito, libertando toda a mágoa acumulada, todo o ódio e frustração.
Ele não ligaria -isso estava mais do que claro- mas Verônica simplesmente não conseguia evitar seus pensamentos esperançosos.
Chegara a imaginar o telefonema, quem sabe um milhão e meio de vezes, e todas as possibilidades. Ele choraria, pediria desculpas por sumir e ela passivamente marcaria um encontro de reconciliação.
Um encontro apenas -e ela não pôde evitar um sorrisinho irônico- que mal poderia haver nisso? Duas horas entre silêncios contrangidos, lágrimas mornas que teimam em sair pelo canto dos olhos e um pudim de passas. E eles acabariam em uma cama suja qualquer, os corpos e almas purificados no êxtase hipócrita que é o amor.
Ou ainda, ele ligaria e jogaria toda a culpa em seus ombros, a mandaria ao inferno -ou a qualquer lugar pior- e ainda a faria ouvir os gemidos de sua nova prostituta. Assim são os homens crescidos, é o que dizem.
Verônica se sentia preparada para qualquer resposta, qualquer mera notícia confusa de seu paradeiro. Menos para o silêncio que a falta deste telefonema trazia.
sábado, 16 de janeiro de 2010
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Algumas pessoas talvez estejam destinadas a simplesmente vagar por aí, à espera de algum tipo de piedade.
Às vezes elas encontram algo que acham que seja o amor. Elas acham que seja, porque essa coisa as faz ficar enjoadas, como se um monte de insetos andassem por suas entranhas. Eles não só rastejam pelos órgãos, como vão digerindo grande parte deles.
O suor frio se torna frequente, as dores de cabeça idem. E elas notam que não conseguem pensar em outra coisa.
Mas elas caem na realidade e notam que tudo não passa de indigestão por excesso de cafeína. Ou quem sabe o eleito colateral do Clonazepam. Um pequeno espasmo esquizofrênico.
Seus órgãos cicatrizam um pouco. Dói muito, dói mesmo.
Aquela pequena sensação confudida com o amor, se transforma em raiva, em vontade de quebrar qualquer um que aparente felicidade.
O mundo deveria explodir em momentos como esse.
Às vezes elas encontram algo que acham que seja o amor. Elas acham que seja, porque essa coisa as faz ficar enjoadas, como se um monte de insetos andassem por suas entranhas. Eles não só rastejam pelos órgãos, como vão digerindo grande parte deles.
O suor frio se torna frequente, as dores de cabeça idem. E elas notam que não conseguem pensar em outra coisa.
Mas elas caem na realidade e notam que tudo não passa de indigestão por excesso de cafeína. Ou quem sabe o eleito colateral do Clonazepam. Um pequeno espasmo esquizofrênico.
Seus órgãos cicatrizam um pouco. Dói muito, dói mesmo.
Aquela pequena sensação confudida com o amor, se transforma em raiva, em vontade de quebrar qualquer um que aparente felicidade.
O mundo deveria explodir em momentos como esse.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Nada pessoal.
Tenho descoberto muitas coisas.
Como a minha paranóia em relação às pessoas é tantas vezes sem sentido e como tudo ficaria tão mais fácil se eu não pensasse tanto. Não pensar é quase afrodisíaco, sério.
O medo, que foi sempre tão cultivado por mim, sempre tão louvado. Eu fiz do medo um ídolo, e o chamei de Deus.
Parece agora tão inofensivo, quase etéreo em minha mente.
Ele existe, é claro, e vai acompanhar-me provavelmente por toda a vida. O medo é onipresente. Mas nada me impede de espantá-lo, nem que seja por cinco minutos. Criei minha própria luminosidade.
Não sou fria. Não, não venha me dizer que sou insensível.
Eu não declamo o meu amor por aí, não faço cartas intermináveis nem promessas de compahia absoluta e eterna.
Eu amo, amo muita gente, entre risadas e piadas idiotas, eu as amo.
Entre comentários inúteis, entre as futilidades, eu amo.
Eu amo mesmo que não saibam, mesmo que não pensem em amor, mesmo que não sintam nada, nada por mim e nada por si mesmas.
Eu amo mesmo que eu não fale, mesmo que eu tenha um sorriso irônico a todo instante, mesmo que eu não leve nada à sério.
Amo quem me faz compahia, quem ri comigo, quem me entende. -mesmo que ninguém de fato, entenda-
Amo quem não foge dos meus abraços e amo principalmente quem entende quando eu não quero abraçar.
Como a minha paranóia em relação às pessoas é tantas vezes sem sentido e como tudo ficaria tão mais fácil se eu não pensasse tanto. Não pensar é quase afrodisíaco, sério.
O medo, que foi sempre tão cultivado por mim, sempre tão louvado. Eu fiz do medo um ídolo, e o chamei de Deus.
Parece agora tão inofensivo, quase etéreo em minha mente.
Ele existe, é claro, e vai acompanhar-me provavelmente por toda a vida. O medo é onipresente. Mas nada me impede de espantá-lo, nem que seja por cinco minutos. Criei minha própria luminosidade.
Não sou fria. Não, não venha me dizer que sou insensível.
Eu não declamo o meu amor por aí, não faço cartas intermináveis nem promessas de compahia absoluta e eterna.
Eu amo, amo muita gente, entre risadas e piadas idiotas, eu as amo.
Entre comentários inúteis, entre as futilidades, eu amo.
Eu amo mesmo que não saibam, mesmo que não pensem em amor, mesmo que não sintam nada, nada por mim e nada por si mesmas.
Eu amo mesmo que eu não fale, mesmo que eu tenha um sorriso irônico a todo instante, mesmo que eu não leve nada à sério.
Amo quem me faz compahia, quem ri comigo, quem me entende. -mesmo que ninguém de fato, entenda-
Amo quem não foge dos meus abraços e amo principalmente quem entende quando eu não quero abraçar.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Feel no shame for what you are.
Hoje tento entender onde nós nos perdemos.
Em que ponto da história nos despimos e renegamos o que nós é de direito, o que é orgânico.
Em que ponto tivemos vergonha de tudo. De rir, de chorar, de ser.
Deixamos de ser verdadeiros. E pra que tudo soasse convincente, mentimos pra nós mesmos.
Pois antes de tudo, houve o tempo da harmonia.
As mãos dadas no banco. As madrugadas tranquilas.
Onde nada precisava ser dito pois as palavras eram livres, caminhavam à nossa volta. Agora preciso inventá-las para que você entenda. O silêncio é constrangedor. Nossos diálogos tolos. Me calo.
Calo mas não esqueço. Onde nos perdemos, amor?
Onde o meu riso passou a ser perturbador e a minha alegria sufocante?
Em que ponto da história nos despimos e renegamos o que nós é de direito, o que é orgânico.
Em que ponto tivemos vergonha de tudo. De rir, de chorar, de ser.
Deixamos de ser verdadeiros. E pra que tudo soasse convincente, mentimos pra nós mesmos.
Pois antes de tudo, houve o tempo da harmonia.
As mãos dadas no banco. As madrugadas tranquilas.
Onde nada precisava ser dito pois as palavras eram livres, caminhavam à nossa volta. Agora preciso inventá-las para que você entenda. O silêncio é constrangedor. Nossos diálogos tolos. Me calo.
Calo mas não esqueço. Onde nos perdemos, amor?
Onde o meu riso passou a ser perturbador e a minha alegria sufocante?
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